É do seu quintal em Arembepe, no litoral norte da Bahia, que a mixologista Maria Bento obtém os principais ingredientes usados nos seus drinks vendidos na região e na capital, Salvador. Com mais de 30 anos de profissão, ela é uma das precursoras de um movimento que tem ganhado força nos últimos anos: o uso de frutos e ervas nativas na produção de coquetéis.
“Sou neta de parteira, benzedeira, rezadeira, filha de agricultor, vivi na roça até os dez anos de idade e sempre tive isso na minha vida. Mesmo morando em apartamento, nunca deixei de ter o meu o meu cantinho com minhas plantinhas”, afirma Bento, conhecida regionalmente como “mãe da coquetelaria nordestina” por ter sido uma das primeiras a incluir ingredientes locais em suas composições.
As criações, conta, surgiram por necessidade ainda em meados da década de 1990, quando o acesso a ingredientes clássicos da coquetelaria era bem mais difícil. Cansada de pedir para amigos trazerem insumos de fora, ela apostou no que tinha à disposição.
“O que eu fiz foi colocar aquilo que já conhecia e que eu tinha propriedade para poder usar. As flores, as ervas, as raízes e fui implementando tudo isso na minha coquetelaria regional”, afirma. Dentre os principais ingredientes estão desde frutos nativos como cambuí, mangaba e seriguela a flores e ervas brasileiras, como a bouganville (também conhecida como primavera ou três marias).
Em Feira de Santana, a 100 quilômetros de Salvador, o sertão nordestino foi a inspiração para Heloísa Carli criar a carta de drinques da Tchim Tchim em 2025. A iniciativa de trazer ingredientes como licuri e umbu para suas receitas gerou estranhamento no público da região.
“Comercialmente, senti essa dificuldade de as pessoas não comprarem o conceito porque não consideram alta coquetelaria. As pessoas confundem as coisas e entendem que o sertanejo não pode ser sofisticado, mas o sertão não é oposto de sofisticação. A gente só precisa revisitar nossas teorias”, afirma a mixologista.
O trabalho de revisitar suas origens e a própria coquetelaria já rendeu a Heloísa destaque em concursos e premiações do segmento promovidas pela indústria de bebidas em São Paulo e Salvador, onde apresentou pela primeira vez sua técnica de “fat wash” com óleo de licuri no lugar do azeite de oliva, do óleo de coco ou da manteiga, mais comumente usados. “A estranheza das pessoas era totalmente perceptível”, recorda.
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A pesquisadora e também mixologista Néli Pereira ressalta a importância de profissionais locais para a valorização de ingredientes genuinamente brasileiros na criação de bebidas e drinques que aliem cultura, tradição e economia regional.
“O trabalho do bartender é muito menos um trabalho sobre si e muito mais um trabalho sobre o ciclo que ele sustenta e ilumina. Nesse sentido, acho que os bartenders locais têm esse papel de intermediador ao trazer à tona as comunidades, os ingredientes, e seus usos”, afirma.
Durante quase dez anos, de 2013 a 2022, ela percorreu o país para pesquisar os usos de ervas e frutos nativos com potencial para a coquetelaria. “Descobri que esses ingredientes que não estavam sendo usados na coquetelaria estavam sendo usados na medicina popular e passei conversar com rezadeiras, benzedeiras, erveiras, mateiros e comecei numa pesquisa enorme pelo Brasil”, conta Néli.
Ao classificar seu trabalho como uma pesquisa cultural mais do que uma investigação sobre coquetelaria de bar, ela se coloca na vanguarda de um movimento que tem ganhado força nos últimos anos, mas critica o modo como a atividade é vista atualmente. “Ainda se coloca a bebida num lugar do entretenimento, ela ainda não é entendida como parte da cultura alimentar do nosso país”, afirma a especialista.
FONTE: GLOBO RURAL – Por Cleyton Vilarino — São Paulo



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