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A BASE DO POMAR

Manejar corretamente o solo, preservando suas características, fertilidade e sustentabilidade, mais do que um cuidado ambiental, é uma necessidade para o fruticultor, que pode obter vantagens, inclusive no pós-colheita.

Marlene Simarelli

A ciência e a prática já comprovaram os benefícios para o meio ambiente das técnicas de conservação de solo na redução do assoreamento e no aumento da vazão dos mananciais; a retenção da água no solo, a manutenção ou retomada do equilíbrio da presença de insetos e redução de pragas e doenças, entre tantos outros. A Produção Integrada de Frutas - PIF -, em vigor no País para diversas culturas, tem como premissas básicas o monitoramento da qualidade do solo nos aspectos físicos, químicos e biológicos; o controle dos processos de erosão; o manejo das plantas infestantes com manutenção da cobertura vegetal para proteção, etc. "O cuidado com o preparo do solo para o plantio de mudas de frutíferas, sejam anuais ou perenes, nas regiões tropicais e subtropicais, como o Brasil, deve considerar que muitos dos prejuízos na agricultura, como baixa produtividade, têm sido causados pelo preparo inadequado. O preparo, que é considerado o manejo físico do solo, deve estar associado à utilização de sistemas de rotação, consorciação e associação de culturas e de coberturas alternativas de inverno", afirma o pesquisador Pedro Freitas, da Embrapa Solos, do Rio de Janeiro, um dos maiores incentivadores do sistema de plantio direto.

"Quem instala um pomar, que vai produzir durante 15 a 20 anos, é porque pretende permanecer no local. Em função disso, o preparo do solo e o plantio com fins conservacionistas devem ser prioritários. Entre as práticas, deve-se priorizar a manutenção do solo com coberturas vegetais, utilizando a roçadeira ao invés da grade; aumentar a saturação por bases nas profundidades do solo com maior concentração de raízes em toda a área de plantio; alocar o plantio em curvas de nível, com cordões em contorno vegetados, terraços e outras práticas conservacionistas mais complexas à medida que a declividade aumenta", orienta o pesquisador Laércio Duarte Souza, da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, Cruz das Almas, BA, que trabalha com manejo e conservação do solo e fruteiras. O cultivo em terrenos inclinados facilita a erosão e requer medidas de controle, que podem ser tanto mecânicas (terraceamento, plantio em nível ou em faixas, etc.) como vegetativas (plantio direto ou preparo mínimo, cobertura do solo, rotação de culturas, etc.). Terrenos planos com depressões podem favorecer o acúmulo de água, requerendo ações de drenagem. "A manutenção da estrutura do solo pelo uso de métodos conservacionistas de preparo é um meio, em potencial, para redução de perdas de água por erosão e por evaporação; e para o aumento da infiltração e da capacidade de armazenamento no solo", assegura Pedro Freitas.

MUITA COBERTURA

"O manejo da cobertura vegetal é fundamental para a fruticultura moderna, em áreas tropicais, onde o solo tem que estar coberto sempre, com cobertura morta ou viva," enfatiza Afonso Peche, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas. Ele relata que "são utilizadas práticas de manejo de plantas de cobertura em pomares de plantas perenes para diminuir os efeitos do tráfego localizado, principalmente a compactação na linha do rodado. Cobertura morta é preconizada para cobrir o solo nos períodos em que a fruteira está brotando, florindo e formando o fruto (chumbinho). Cobertura verde é indicada para cobrir as entrelinhas continuamente". Peche acrescenta que "nos períodos em que a fruteira está descansando ou "dormindo" é muito interessante que a planta de cobertura vegete vigorosamente, pois assim produz fitomassa e desenvolve bastante o sistema radicular. Quando a fruteira estiver próxima de "acordar", a cobertura deve ser rebaixada mecanicamente, preparando o espaço para desenvolvimento da planta cultivada". Como benefícios da cobertura vegetal no pomar, o pesquisador elenca a proteção da superfície contra as chuvas torrenciais, o sol e o vento; o fornecimento de alimento para o complexo vivo do solo; a contribuição para manter a biodiversidade local; a contribuição para o manejo do mato e para a construção do perfil produtivo do solo, etc.

Em relação às plantas para cobertura, as leguminosas fixam nitrogênio do ar e, em virtude do seu sistema radicular profundo e pivotante, reciclam nutrientes das profundidades maiores para a superfície, explica Laércio Duarte Souza. "As raízes funcionam como drenos em solos compactados e adensados, devido à profundidade alcançada e à lenta decomposição. A parte aérea, com alto teor de nitrogênio, de rápida decomposição, é boa para incorporar nutrientes, mas cobre a área por um período muito breve", diz. Ele acrescenta que "as gramíneas têm sistema radicular volumoso e superficial, com capacidade de agregar e estabilizar as partículas do solo, melhorando estrutura e porosidade. A parte aérea, mais rica em carbono, resiste mais à decomposição e mantém o solo protegido por mais tempo".

ROTAÇÃO DE CULTURAS

A base da conservação do solo para as fruteiras anuais, como morango, melão e melancia, é a adequação do local e a rotação de culturas. Afonso Peche explica que "a adequação passa pela implantação do terraceamento", mas lembra que sozinho não controla a erosão, sendo necessário a adoção de práticas complementares, como plantio em nível e cobertura permanente da superfície. No caso do morango e do melão, normalmente a cobertura é feita com filme plástico e os canteiros devem, na medida do possível, ser construídos "cortando" o declive, jogando as águas excedentes em um canal escoadouro, projetado para o local. A melancia é plantada em área total, devendo ser sobre cobertura morta ou sobre superfície devidamente preparada, com coveamento em nível.

Peche ressalta que "a rotação é técnica antiga, com resultados incontestáveis em culturas perenes, como muitas fruteiras. Ele sugere, nesses casos, a prática da rotação através dos plantios intercalares. "Nos estágios iniciais de crescimento é sempre interessante manter a cobertura com auxílio de culturas econômicas, como milho, girassol, trigo, aveia e outras gramíneas; e também de olerícolas, como couve, repolho e outras folhosas", orienta Peche.

INFLUÊNCIA NO PÓS-COLHEITA

Pêssegos produzidos em pomares com cobertura vegetal apresentam firmeza de polpa superior aos colhidos em pomar com cultivo tradicional. A constatação é resultado da pesquisa sobre influência do manejo do solo na conservação e na qualidade pós-colheita de pêssegos, conduzida pelo engenheiro agrônomo Carlos Roberto Martins, professor da PUCRS, em Porto Alegre. A pesquisa estudou o efeito do manejo do solo, mantido com cobertura vegetal na linha de plantio, sobre a qualidade póscolheita de pêssegos durante o armazenamento refrigerado. Os tratamentos constaram de frutas colhidas em pomares com cobertura feita com aveia e sem cobertura, com cultivo tradicional, em três estádios de maturação. As avaliações de firmeza, acidez (ATT), sólido solúvel total (SST) e coloração foram feitas na colheita e após 6, 12 e 18 dias de armazenamento, mais três dias de simulação de comercialização. "Vale lembrar que, de forma geral, a fruta não melhora a qualidade, apenas mantém os aspectos determinados na fase de campo", afirma o professor.

Segundo Martins, "o equilíbrio dos nutrientes no solo é fator preponderante na definição da qualidade das frutas tanto para consumo in natura quanto para potencializar a armazenagem". Ele observa que "sistemas de produção com cobertura verde, proporcionam, ao longo dos anos, reciclagem de nutrientes, recuperação do solo, dos balanços hídrico e nutricional, possibilitando a redução de fertilizantes químicos. As plantas são mais resistentes às enfermidades, nutricionalmente bem equilibradas; nelas, os macros e micronutrientes assumem importantes papéis nos processos bioquímicos e fisiológicos, influenciando as características físicas e químicas das plantas e frutas. Por isso a utilização de cobertura vegetal do solo melhora o potencial de armazenamento das frutas de caroço, contribuindo para a manutenção da firmeza de polpa, coloração das frutas e características sensoriais tendo uma aceitabilidade comercial e qualidade geral superior."

***

Matéria retirada da Revista Frutas e Derivados.
Site: http://www.ibraf.org.br/x-re/f-revista.html

Data Edição: 02/02/2007
Fonte: Revista Frutas e Derivados

 
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